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Onde foi parar aquela mulher...

Queria poder perceber em que momento me perdi de mim...
Outro dia nos reunimos em casa para rever antigos filmes caseiros dos encontros familiares, aniversários das crianças, natal, apresentações na escola e no fim, meu casamento.
Tive um susto! O que era para ser lindo, para mim foi um choque.
Enquanto eles riam, se divertindo vendo aquelas imagens alegres, se encantavam ao se ver ainda bebês, gargalhavam ao achar ridículos os modelitos que a moda ditava, tudo era motivo de graça, as roupas, o corte de cabelo, a música, as danças, emocionavam-se ao ver alguns queridos que já não estão conosco, enquanto aquele momento acontecia eu fui me afundando em pensamentos e o meu olhar paralisado se perdeu num vazio, ao me ver ali, naquele filme, tão ...tão alegre, tão feliz.
Não foi a juventude, a beleza, minhas unhas compridas e esmaltadas, meu corpo, minha pele, que me causaram estranheza, foi a minha energia, foi a minha dança solta e plena, foram os meus olhos brilhantes transbordando sonhos, foi a minha voz impostada e segura...onde foi parar aquela mulher?
Em que momento eu me perdi?
Meus filhos me olharam em vários momentos e no fundo também perceberam que aquela lá, do filme, não era a mesma que estava ali...e senti meu corpo gelar, eu senti vergonha de mim.
Quase sem vaidade, com alguns kilos a mais.
Ok, uns bons kilos a mais.
Cabelos com 10 cm de raiz por fazer que raramente vêem o pente, pois é mais prático enrola-los e prende-los com uma piranha.
Nas unhas, nem base.
Nas orelhas, nenhum brinco.
Nos lábios, nenhum sorriso.
Em que momento eu me perdi de mim?
Em que momento eu percorri o caminho inverso e fiz com que a mulher ainda cheia de sonhos entregasse o salto alto para a menina, e pegasse a boneca?
Senti vergonha de mim... Enclausurei o meu corpo e a minha alma, envenenei a esperança, condenei-me ao fracasso, desejei a morte...
Mas que linda mulher estava lá, encantadora, sedutora e apaixonante, dona de uma segurança invejável, que ocupava todos os espaços, não conhecia cansaço, que adorava viver e que em um lapso de tempo, se esqueceu.
  E desaprendeu.
De dançar, de como é escolher um vestido, de como é bom rir com os amigos, do quanto uma lingerie de renda branca fica maravilhosa na pele, de como é mostrar aos outros como é que se faz, de cor de batom, de banho de rio, de pele bronzeada e marquinha de biquíni, de pelos dourados, de cantar no banho, de pintar uma parece, de mudar o sofá de lugar, de beijar na boca, de andar de salto, de cabelos longos soltos, de correr na chuva feito louca, de viajar sozinha, de se olhar no espelho, de se admirar, de sair nas fotos, de ter asas, de voar.
Talvez ela pudesse se encontrar, se não fossem os hormônios, se não fossem os demônios, se existissem mais dias de sol, se nascessem mais girassóis, se brotasse um novo sentimento, se ela conseguisse levantar os olhos e conseguisse levantar dessa cadeira...e se ela fosse ao encontro dela mesma.
Se ela pudesse soltar os cabelos, caprichar nos cílios e no batom... Ela iria amar reencontrar aquela que um dia foi, mesmo que nunca mais fosse a mesma, mas que não houvesse mais essa ruptura, que ela pudesse se olhar no espelho e ver tudo o que um dia foi, sem separações, sem sustos, para nunca mais sentir vergonha de si...


11/08/17
 

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